29/11/2017 20:06:35 | Atualizado em 29/11/2017 21:09:52

Novembro Azul acaba, mas fica uma lição para o ano todo

Para acabar com as mortes por câncer de próstata, basta acabar com o preconceito em relação ao exame digital de toque retal.

Por José Roberto de AlmeidaMédico urologista Nelson Trad Filho em conversa descontraída com o público da Escola Presidente Vargas, em Dourados, sobre câncer de próstata.

 

O que o médico sente ao fazer o exame de toque retal? "Bom, dá para ver na cara dele, na hora, porque o exame é infalível", diz o urologista Nelson Trad Filho, médico encarregado pelo setor de Urologia da Secretária de Saúde de Mato Grosso do Sul, "se for um nódulo, duro, a expressão é de tristeza, não dá para esconder", disse aos estudantes adolescentes e mulheres, na maioria, que participaram da palestra realizada na semana passada, dia 23, na Escola Estadual Presidente Vargas, em Dourados.

Neste "Novembro Azul", Trad Filho percorreu várias cidades do estado, buscando não só esclarecer dúvidas sobre o câncer de próstata, como também o apoio das irmãs, filhos, netos e, principalmente, das esposas de homens que resistem em procurar um médico regularmente para fazer o exame de toque retal e outros cuidados que deve ter com a saúde da próstata, a partir dos 45 anos de idade.

"A mulher tem uma cultura preventiva muito mais afinada, mais apurada, do que nós, homens, e quando ela acompanha o marido, ela faz o papel de induzir ele a ir pelo bom caminho da prevenção", disse Trad à Corpo & Mente. Ele argumenta que, se a mulher pode ficar até 20 minutos em posição ginecológica, para fazer o exame de colo de útero, por que o homem resiste a um exame que dura menos de 10 segundos e pode lhe salvar a vida?

Figura pública das mais conhecidas no estado - já foi inclusive prefeito de Campo Grande -, Nelson Trad usa de sua popularidade e autoridade médiNa maioria, mulheres e jovens na audiência. Os homens - mais uma vez - fugiram do papo, apesar dos insistentes convites.ca para falar de um jeito comum e sem meias palavras que o câncer de próstata é uma doença cruel e silenciosa, pois quando dá sintomas, pode ser tarde demais.

"O câncer de próstata, quando cresce muito, manda raízes para os ossos e dá uma dor que não tem remédio que tire, a gente tem de internar o paciente, usar morfina, tamanha é a dor que ele sente, emagrece, fica pele e osso, e morre com um sofrimento atroz", fala o médico.

Ele espera que as imagens dessas palavras sensibilizem as pessoas a procurar a única saída que existe, eliminar o preconceito. "Esse é um preconceito que não leva ninguém a lugar nenhum, pelo contrário, faz o paciente ser traído pela ignorância de evitar um exame simples", disse na entrevista, reforçando que se for diagnosticado na fase inicial, a cura do câncer de próstata hoje é a regra.

"Se for descoberto cedo, precocemente, as chances de cura beiram os 100%, só com cirurgia; se o paciente for operado na fase bem inicial, ele fica curado, sem precisar fazer quimioterapia, sem precisar fazer mais nada, quem opera e fica bom morre de outra coisa, porque, morrer, vai mesmo", brinca.

Não leva nem 10 segundos - usando os dedos, como nas fotos, o Dr. Nelson exemplificou qual é a percepção de um médico ao examinar a próstataEntendendo a Próstata

Cerca de 95% do conteúdo ejaculatório do homem, no clímax da relação sexual, é proveniente da próstata. O líquido prostático permite a motilidade dos espermatozoides, que são produzidos junto com o líquido seminal, nos testículos. Localizada abaixo da bexiga, a próstata também tem a função de regular o fluxo urinário.

O órgão tem uma tendência de crescer, com a idade, sem manifestar dor ou qualquer outro sintoma. Os sinais começam a aparecer nos hábitos urinários, quando, por exemplo, o homem urina e fica com sensação de que a bexiga não esvaziou por completo. Mas além do aumento considerado normal, a partir dos 45 anos, a próstata pode se infeccionar (prostatite) ou desenvolver um tumor, que pode ser benigno ou maligno.

Para saber, é preciso fazer biópsia. Mas para se chegar a essa decisão, o exame de toque é fundamental. E por sua localização na anatomia do homem, não há outro caminho para se tocar a próstata senão pelo ânus. O exame é necessário porque é o mais confiável. Pelo tato, o médico avalia a densidade do órgão rapidamente.

Quando está saudável, normal, a sensação é a mesma de quando se aperta a mão, na região abaixo do polegar, flexionado, com a ponta do dedo indicador da outra mão. Já quando está inflamada, o médico sente algo parecido de quando se enche a boca de ar e pressiona a bochecha, levemente. “Agora, dobre o braço e toque a ponta do cotovelo com o dedo da outra mão, você sente algo duro, como um caroço; não tem erro, é um tumor”, falou Nelson Trad.

Para o médico, o esclarecimento e a educação são os principais recursos para acabar com as mortes por câncer de próstata. Em Mato Grosso do Sul, a Secretaria de Saúde mostra que elas vêm caindo – em 2015, foram 223 mortes, em todo o estado; em 2016, aconteceram 215 óbitos causados pela doença; e em 2017 o número estava em 120 mortes, até outubro.

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